Maçã Verde – Wilson R. Júnior
Ruas de paralelepípedos úmidas pela chuva que caiu um pouco antes das 13 horas, o All Star de cano alto pisando na caixa de areia do colégio, o cheiro de shampoo de maçã verde, o suco de soja em saquinhos e o farelo da bolacha na barriga, a groselha, o guaraná de garrafa, o sino da igreja tocando às 16 horas, o martelo da fábrica que ecoa pelo bairro enquanto a atenção é dividida com a sessão da tarde, o danone, a lição de casa, o caderno encapado em papel colorido, o cheiro da cola em bastão, a Ave Maria das 18 horas, o rádio AM, o botão mais duro do UHF, a espera ansiosa pela chegada do pai, o banho quente, o cabelo repartido, a roupa velha pra ficar em casa, o cachorro no quintal, o horário de verão que deixam as tardes mais longas, o Yakult vendido no portão, os ídolos, a inocência, o medo do futuro, os planos, os sonhos, a verdade, as boas intenções, a disputa por figurinhas, a disputa pela vida…
Não, não quero ser saudosista, quero ser consciente de que o tempo passa, de que as coisas mudam e que o hoje será nostalgia amanhã. É o eterno jogo/confronto entre passado e futuro, com a presença do intermediário “presente”, que faz a ponta entre esses dois momentos, o momento presente… Ah o momento presente, o mais longo, o mais agora, o mais já, o mais desesperador, o mais esmagador, o mais urgente.
Não tenho pressa e me desespero pouco, o que tenho é uma urgência enorme pela vida, pelas pessoas, pelo contato, pelo humano, pela busca de algo intangível proporcionado por esse cheiro…cheiro de maçã verde.
