Maçã Verde – Wilson R. Júnior

dezembro 4, 2009 at 4:10 pm (Epifanias) ()

Não quero ser demasiadamente saudosista nem propor uma volta ao passado, muito menos negar as transformações e rupturas na história, mais as vezes o passado em sua mais sinestésica essência me pega de uma tal forma que me faz transcender o tempo e me remota para anos atrás, onde é possível, com um pouco de concentração, sentir tudo outra vez, o mesmo vento, o mesmo cheiro, o mesmo gosto. Esses momentos de transposição são na maioria das vezes inesperados, inusitados e inconvenientes, surgem como uma visita no final da tarde de domingo, e sem pedir licença modifica o roteiro invisível do qual nos propomos a cumprir e nos obriga a ficar em silêncio, deixando apenas que os pensamentos trabalhem e cheguem a uma conclusão ou desespero final. Sem parecer clichê ou qualquer outra definição do tipo, o passado me remete a simplicidade, coisas inexplicáveis, sentimentos que os olhos absorvem e faz provocar aquela ‘cosquinha’ no coração e um sorriso espontâneo no canto dos lábios.

Ruas de paralelepípedos úmidas pela chuva que caiu um pouco antes das 13 horas, o All Star de cano alto pisando na caixa de areia do colégio, o cheiro de shampoo de maçã verde, o suco de soja em saquinhos e o farelo da bolacha na barriga, a groselha, o guaraná de garrafa, o sino da igreja tocando às 16 horas, o martelo da fábrica que ecoa pelo bairro enquanto a atenção é dividida com a sessão da tarde, o danone, a lição de casa, o caderno encapado em papel colorido, o cheiro da cola em bastão, a Ave Maria das 18 horas, o rádio AM, o botão mais duro do UHF, a espera ansiosa pela chegada do pai, o banho quente, o cabelo repartido, a roupa velha pra ficar em casa, o cachorro no quintal, o horário de verão que deixam as tardes mais longas, o Yakult vendido no portão, os ídolos, a inocência, o medo do futuro, os planos, os sonhos, a verdade, as boas intenções, a disputa por figurinhas, a disputa pela vida…
Não, não quero ser saudosista, quero ser consciente de que o tempo passa, de que as coisas mudam e que o hoje será nostalgia amanhã. É o eterno jogo/confronto entre passado e futuro, com a presença do intermediário “presente”, que faz a ponta entre esses dois momentos, o momento presente… Ah o momento presente, o mais longo, o mais agora, o mais já, o mais desesperador, o mais esmagador, o mais urgente.
Não tenho pressa e me desespero pouco, o que tenho é uma urgência enorme pela vida, pelas pessoas, pelo contato, pelo humano, pela busca de algo intangível proporcionado por esse cheiro…cheiro de maçã verde.

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