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	<description>O que eu posso fazer se as palavras me calam o sossego e me atiram do sétimo andar...</description>
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		<title>Para uma avenca partindo &#8211; Caio Fernando Abreu</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Dec 2009 22:56:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>estrelasdistraidass</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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<p>― Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando o meu raciocínio? falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei por que todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor, pensei sim, não, pensar propriamente não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além de nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, de não sentir medo desse mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos conta, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa da garganta que falo, é de uma outra, de dentro, entende? por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim dum jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não crescia se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai ser mais possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa, a COR, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor, não é? pois isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois sala sozinho, pensando numa porção de coisas que eu ia te dizer depois, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis que precisam ser ditas, não faça essa cara de espanto, elas são realmente terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, se você teria, não sei, disponibilidade suficiente para ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e, se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é, eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque, se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente em nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas essas coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu lambem gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. sim, sei, eu vou escrever, não, e não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as bolsas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/estrelasdistraidass.wordpress.com/26/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=estrelasdistraidass.wordpress.com&amp;blog=10748003&amp;post=26&amp;subd=estrelasdistraidass&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Maçã Verde &#8211; Wilson R. Júnior</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Dec 2009 16:10:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>estrelasdistraidass</dc:creator>
				<category><![CDATA[Epifanias]]></category>
		<category><![CDATA[http://epifaniamoderada.blogspot.com/]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://estrelasdistraidass.files.wordpress.com/2009/12/sesc-lindo.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-23" title="Infância - Ane B." src="http://estrelasdistraidass.files.wordpress.com/2009/12/sesc-lindo.jpg?w=269&#038;h=300" alt="" width="269" height="300" /></a></p>
<div>Não quero ser demasiadamente saudosista nem propor uma volta ao passado, muito menos negar as transformações e rupturas na história, mais as vezes o passado em sua mais sinestésica essência me pega de uma tal forma que me faz transcender o tempo e me remota para anos atrás, onde é possível, com um pouco de concentração, sentir tudo outra vez, o mesmo vento, o mesmo cheiro, o mesmo gosto. Esses momentos de transposição são na maioria das vezes inesperados, inusitados e inconvenientes, surgem como uma visita no final da tarde de domingo, e sem pedir licença modifica o roteiro invisível do qual nos propomos a cumprir e nos obriga a ficar em silêncio, deixando apenas que os pensamentos trabalhem e cheguem a uma conclusão ou desespero final. Sem parecer clichê ou qualquer outra definição do tipo, o passado me remete a simplicidade, coisas inexplicáveis, sentimentos que os olhos absorvem e faz provocar aquela ‘cosquinha’ no coração e um sorriso espontâneo no canto dos lábios.</div>
<p>Ruas de paralelepípedos úmidas pela chuva que caiu um pouco antes das 13 horas, o All Star de cano alto pisando na caixa de areia do colégio, o cheiro de shampoo de maçã verde, o suco de soja em saquinhos e o farelo da bolacha na barriga, a groselha, o guaraná de garrafa, o sino da igreja tocando às 16 horas, o martelo da fábrica que ecoa pelo bairro enquanto a atenção é dividida com a sessão da tarde, o danone, a lição de casa, o caderno encapado em papel colorido, o cheiro da cola em bastão, a Ave Maria das 18 horas, o rádio AM, o botão mais duro do UHF, a espera ansiosa pela chegada do pai, o banho quente, o cabelo repartido, a roupa velha pra ficar em casa, o cachorro no quintal, o horário de verão que deixam as tardes mais longas,  o Yakult vendido no portão, os ídolos, a inocência, o medo do futuro, os planos, os sonhos, a verdade, as boas intenções, a disputa por figurinhas, a disputa pela vida&#8230;<br />
Não, não quero ser saudosista, quero ser consciente de que o tempo passa, de que as coisas mudam e que o hoje será nostalgia amanhã. É o eterno jogo/confronto entre passado e futuro, com a presença do intermediário &#8220;presente&#8221;, que faz a ponta entre esses dois momentos, o momento presente&#8230; Ah o momento presente, o mais longo, o mais agora, o mais já, o mais desesperador, o mais esmagador, o mais urgente.<br />
Não tenho pressa e me desespero pouco, o que tenho é uma urgência enorme pela vida, pelas pessoas, pelo contato, pelo humano, pela busca de algo intangível proporcionado por esse cheiro&#8230;cheiro de maçã verde.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/estrelasdistraidass.wordpress.com/22/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=estrelasdistraidass.wordpress.com&amp;blog=10748003&amp;post=22&amp;subd=estrelasdistraidass&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Infância - Ane B.</media:title>
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		<item>
		<title>“E essa febre que não passa e meu sorriso sem graça. Não me dê atenção, mas obrigado por pensar em mim” Renato Russo</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Dec 2009 03:42:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>estrelasdistraidass</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Paixão pelo nada, sabe? Que você anda na rua com ar de quem acabou de encontrar o príncipe encantado-de-olhos-verdes-e-capa-dourada e na verdade você tomou um pé na bunda, paixão pela dor. Pela ausência, pela lágrima, paixão por aquilo que se perdeu há tempos ou aquilo que nem existiu, mas você ama. Pra falar a verdade [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=estrelasdistraidass.wordpress.com&amp;blog=10748003&amp;post=19&amp;subd=estrelasdistraidass&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://estrelasdistraidass.files.wordpress.com/2009/12/aqui-aqui-aqui.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-20" title="A Verdade Sobre a Nostalgia - Ane B." src="http://estrelasdistraidass.files.wordpress.com/2009/12/aqui-aqui-aqui.jpg?w=225&#038;h=300" alt="" width="225" height="300" /></a></p>
<p>Paixão pelo nada, sabe? Que você anda na rua com ar de quem acabou de encontrar o príncipe encantado-de-olhos-verdes-e-capa-dourada e na verdade você tomou um pé na bunda, paixão pela dor. Pela ausência, pela lágrima, paixão por aquilo que se perdeu há tempos ou aquilo que nem existiu, mas você ama.           Pra falar a verdade desde quando tudo se foi eu estou assim e transpareço de uma forma tão vil e iconoclasta que nem sempre funcionam com toda essa beleza que eu pinto em tons cinza, belos tons cinza, meio azulado, meio lilás e com aquele toque de amarelo hepatite pra não perder o sangue frio. Já não consigo mais diferenciar tantas coisas, mas não sei lhe dizer se isso é bom ou ruim. Na maioria das vezes acho bom delirar nessas asas de papelão que coloco em meus pensamentos e às vezes elas se molham pelos chuviscos do copo de chá branco que eu acabo de derrubar em cima da cadeira do escritório.            Boa noite meu amor, repito repito repito, catalisando em um túnel de sensações os quase dois que eu tento mudar, moldar, refletir. Ca-ta-li-as-dor, é isso na verdade o que algumas coisas tem sido para mim, meu amor. Eu mesclo tanta coisa nessas linhas tortas que ainda insisto em escrever, mesmo com febre, mesmo com dor, mesmo com a carência que eu sinto nessas horas da madrugada, carência e vontade de uma mão ou de um rosto ou só um sorriso perdido no meio de mil pessoas que se esbarram no metrô sete e meia da manhã.           Carência não passa, ela aumaenta só aumenta e a gente tenta a todo momento suprir a necessidade de momentos de uma forma tão traindo a si mesma que fica até um pouco feio. Paixão pelo nada também não.</p>
<p>Essa coisa toda não passa de um simulacro porque na verdade nada existe e essa chuva é mera projeção recorrente de outras tantas máscaras que colocamos dia-após-dia-nas-frustrações-cotidianas-das-ruelas-do-interior.</p>
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			<media:title type="html">A Verdade Sobre a Nostalgia - Ane B.</media:title>
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		<title>Por uma tarde de junho &#8211; Caio Fernando Abreu</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Dec 2009 14:03:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>estrelasdistraidass</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[— Era preciso que fosse um momento absolutamente perfeito — ele foi dizendo, uma tarde afinal de junho, e o que se poderia dizer afinal sobre tardes afinal de junho senão coisas majestosas como um allegro barroco, ele sorvia o conhaque e vezenquando atiçava as brasas da lareira com o atiçador de bronze? cobre? ferro? [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=estrelasdistraidass.wordpress.com&amp;blog=10748003&amp;post=18&amp;subd=estrelasdistraidass&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://estrelasdistraidass.files.wordpress.com/2009/12/floresta-de-hagenia-hypericum.jpg"><img src="http://estrelasdistraidass.files.wordpress.com/2009/12/floresta-de-hagenia-hypericum.jpg?w=217&#038;h=300" alt="" title="Floresta de Hagenia Hypericum - Sebastião Salgado" width="217" height="300" class="aligncenter size-medium wp-image-17" /></a></p>
<p>— Era preciso que fosse um momento absolutamente perfeito — ele foi dizendo, uma tarde afinal de junho, e o que se poderia dizer afinal sobre tardes afinal de junho senão coisas majestosas como um allegro barroco, ele sorvia o conhaque e vezenquando atiçava as brasas da lareira com o atiçador de bronze? cobre? ferro? prata? com muito cuidado para que o que chovia lá fora miúdo e o crepitar das brasas e o estalar da madeira e os movimentos que fazia distendendo, contraindo a coluna para atiçar o fogo e o crepitar e o estalar e o miúdo e ainda o que ia dizendo, com cuidado para que o ritmo não sofresse alterações, imperfeições, tempo sem jaça, que fosse, agitando de leve no ar o líquido dourado no cálice aquecido:<br />
— Eu, fazia tanto tempo que — um tanto brutal hesitar agora, mancha de vinho na renda, mas reformulava, pequenas interrupções, ai pequenas interrupções, a luz dourando o cabelo dela sentada à sua frente, mas reformulava tentando de outro jeito:<br />
— Já não era mais possível continuar ocultando? fingindo? negando? mentindo? que — optou pelos quatro, sem interrogações, ficava bem esse tom hesitante, mas uma porta batia ao longe, na rua um carro tentava inutilmente dar a partida, o motor raspava areia, zinco, se fosse possível um silêncio absoluto para finalmente dizer:<br />
— Eu tenho feito fantasias loucas com você — ela tão irreal no sofá antigo, as samambaias caindo por trás, tropical, oriental, colonial, tudo ao mesmo tempo, um rubi na testa e também uma tiara de pitangas (bonito isso, aprovou contente), mais uma touca rendada de sinhazinha, os três simultâneos, e retomando de outro jeito:<br />
— Tanto medo, você me entende? — como passos furtivos, cascalho pisado de madrugada, a descarga da privada literalmente cagando no entremeio do retinir de cristais (aprovou outra vez: sonoro), mas ela não sorria nem movia músculo algum no rosto, de certa forma era como se fizesse uma ginástica de relaxamento facial, mas tão-tão-dizer-isso-assim, malares pétreos, talvez melhor, um abscôndito langor. melhor ainda, entusiasmou-se levemente ansioso, apenas o tempo da cinza cair? pingar? gotejar? poluir quem sabe? a calça de veludo? alpaca? flanela? casimira? continuando pois:<br />
— Quase três anos, é muito tempo calado. Hoje finalmente eu — passou a língua contra os dentes por dentro, algumas superfícies ásperas, senzalas? sibérias? sertões? saaras? e foi então que sentiu e chegou a pensar num parágrafo especial, mas contra todas as expectativas não havia drama, um primeiro pré-molar superior esquerdo, seria exatamente isso? como um chiclete, não, mais consistente, um amendoim duro, um milho de pipoca desses que não arrebentam, uma bala de hortelã, envolveu-o com a língua para trazê-lo até bem perto dos incisivos e disfarçado levou a mão à boca, como se tossisse suave? contido? discreto? melancólico? fatigado? os dedos seguraram confirmando: sim, um primeiro pré-molar superior esquerdo, inteiro, irregular, sofrido de muitas meias-solas, rodou-o entre o indicador e o polegar, abstraído, até os óculos de aro frouxo escorregarem para a ponta do nariz recolocou-o na boca, ela esperava, ele ajeitou os óculos, ele esfregou as mãos para gerar energia, ela esperava, ele respirou sete vezes, profundamente, alargando primeiro o ventre, depois afastando as costelas e finalmente elevando os omoplatas, pulmões estufados, e assoprou de uma só vez, num tranco, ela esperava, ai como ela esperava, a coisa escura plantada súbita na sala fez com que, como quem vira a página, ele decidisse assim como redizer o que não tinha dito:<br />
— Escuta, foi um engano. Eu não estava absolutamente levando a sério o que dizia — o sofá tinha molas arrebentadas, as samambaias eram algumas de plástico, outras raqufticas, amareladas, olhar pela janela então e nada nem ninguém para ajudar, contou para si mesmo devagarmente punitivo: Era uma vez um homem sentado numa cadeira dura rodando dentro da boca um primeiro pré-molar superior esquerdo recém perdido, numa sala vazia. Atrás da janela de vidros baços de umidade e sujeira podia-se ver uma tarde molhada talvez de junho ao fundo de árvores secas de galhos-garras eriçados contra um céu de estopa — fora uma vez, e ela não esperava mais, restara uma pitanga madura sobre a mancha de porra envelhecida de alguma punheta no assento do sofá, ou nem ao menos isso, aceitou concluindo:<br />
— Eu não consigo entender nada do que se passa<br />
— meu amor secreto, meu amor calado, não acrescentou, talvez agora desse um suspiro mas não morresse, ou engolisse o dente para rasgar as tripas ou quem sabe cuspi-lo longe convulsivo como numa hemoptise, e sobre o chão vomitar a tarde? a história? a perda? a morte? o medo? a solidão? quem sabe o nojo antigo sedimentado e sem remédio. E acabava assim, de repente, ainda que não fosse absolutamente perfeito nem redondo, chovera demais nos últimos dias e havia tantos sapos pelos quintais semi-abandonados, os charcos, os poços, as minhocas retorcidas nas lamas, os plurais e a língua singular apertando tão violenta o dente contra o lábio que talvez escorresse um filete de sangue maduro sobre o branco da camisa, mas antes disso, sem efeitos, secamente, acabava assim, era uma pena, todos sentimos muitíssimo, mas que se há de fazer se acaba mesmo assim? </p>
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		<title>Sexto Andar &#8211; Ane Battagy</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 00:59:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>estrelasdistraidass</dc:creator>
				<category><![CDATA[suave coisa nenhuma]]></category>
		<category><![CDATA[Bete Balanço - Cazuza]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13" class="wp-caption aligncenter" style="width: 235px"><a href="http://estrelasdistraidass.files.wordpress.com/2009/12/sexto.jpg"><img class="size-medium wp-image-13" title="Sexto Andar" src="http://estrelasdistraidass.files.wordpress.com/2009/12/sexto.jpg?w=225&#038;h=300" alt="" width="225" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Sexto Andar - Ane B.</p></div>
<p>Eu desaprendi o jeito. Vivi tempo demais trancada dentro de mim e agora nem sei por onde começar essas coisas todas do coração. Não sei se esse desajeito todo é insegurança ou verdade lastimável que eu teimo em não engolir e fico procurando em qualquer vírgula um motivo pra ser o contrário do que é ou não, do que eu andei criando nesse tempo longe de você. Um dia eu soube e agora sou assim: crua, fria, dura, indemolível e sem graça. E se gosto de você? Eu tento negar quando procuro provas contrárias à realidade, mas longe de você eu acredito nessas coisas do coração só não acredito que possa ter essa dádiva mais uma vez caminhando ao meu lado. Quantas vezes, menina, você se sentiu engolida por uma saudade que fica sussurrando palavras chaves de dor e necessidade e carência dentro do seu ouvido gelado de solidão e amor? E quantas vezes em que nossos lábios estavam juntos, ou apenas nossos olhos e nossas mãos, você sentiu isso?<br />
Acabo entrando em um transe momentâneo e criando mil teorias sobre nós e sobre a espera e a urgência, as coincidências e as limitações, nunca sobre o fim por que o fim me dói tanto, menina, de um jeito gostoso de sentir, qualquer que seja esse fim e de qualquer que sejam as coisas. Aí te vejo em rótulos de cervejas e potes de margarinas e por cima das cabeças enquanto falo e recrio a cena da primeira vez e da segunda e da terceira e de todas as vezes que foi possível sentir tudo o que eu acabo falando agora toda sem parar e você já nem deve estar ouvido. Com certeza ouvindo você não está, mas eu tento tento tento tento pensar muito nas realizações e no inesperado para que você possa sentir o mesmo que eu nesse liquidificador de sentidos que borbulha em mim e não preciso nem te tocar. Eu queria te sentir nesse momento, mas essa minha imbecilidade e insegurança, essa minha preocupação com o tempo corrido da primeira vez até aqui, me impede de sair na rua uma e meia da manhã bater na sua porta e falar mais uma vez todas essas palavras que eu repito todas as noites dentro dos sonhos depois da incoerência que foi o que eu sempre quis e sempre irei querer, e até mesmo sabendo que esse negócio de eternidade não exista, e eu gosto de saber disso porque o fim,  mesmo que eu prefira evitar pensar, sempre é renovador, mesmo paradoxalmente. Isso sempre me faz entrar em um túnel sem fim de palavras e pensamentos soltos que quando consigo aparelhá-los em sentenças eu prefiro deixar como está. Fica bonito soltar os pensamentos assim. É uma merda na verdade.<br />
Menina, você nem sabe o que fez aqui dentro de mim e agora tudo o que eu queria era que você não fosse embora ou o sentimento, algo egoísta e altruísta. Já disse que era um paradoxo. Tudo que eu queria era deitar com você naquele sofá de sábado e tocar seu rosto devagar como já foi uma vez e te olhar dormir. Deitar minha cabeça no seu ombro e ouvir sua risada solta musicada por notas indecifráveis de um mantra que me deixa assim. Eu sei que tudo isso não adianta, eu sempre faço algumas cagadas e isso não é novidade, mas sentimentos como esse sei lá acho que deveriam ter suas brechas.<br />
Menina, já deu pra perceber o quanto você me tira do sério.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/estrelasdistraidass.wordpress.com/14/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=estrelasdistraidass.wordpress.com&amp;blog=10748003&amp;post=14&amp;subd=estrelasdistraidass&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Pequeno ensaio sobre a náusea (ou sobre qualquer coisa que vem de dentro) &#8211; Ane Battagy</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 00:51:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>estrelasdistraidass</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[A Mulher Mais Linda da Cidade – Charles Bukowski]]></category>

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		<description><![CDATA[Queria fazer um relato. Tinha tanta coisa a dizer, mas sempre havia aquela falta momentânea de léxico&#8230; E talvez de coração. Ficava o tempo todo tentando descobrir se o que perdera era inspiração ou apenas adquiriu algo que depois veria que era intrínseco. Não só a ela, a todos. E isso lhe causava espasmos e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=estrelasdistraidass.wordpress.com&amp;blog=10748003&amp;post=8&amp;subd=estrelasdistraidass&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Queria fazer um relato. Tinha tanta coisa a dizer, mas sempre havia aquela falta momentânea de léxico&#8230; E talvez de coração.<br />
Ficava o tempo todo tentando descobrir se o que perdera era inspiração ou apenas adquiriu algo que depois veria que era intrínseco. Não só a ela, a todos. E isso lhe causava espasmos e crises intensas de choro. Já não conseguia separar sonho e realidade, mesmo assim queria todo tempo viver um pouco do que um dia pensou que fosse só que era uma máscara – que já não lhe serviria mais.<br />
Estigmatizada tentava seguir, exteriorizando aquilo que um dia conseguiu conter e essa era mais uma das coisas que não fazia sentido. O pólen nem o ferrete lhe atingiam mais.<br />
Era dura, fria, destemida. Só temia ser estanque. Não via mais veracidade em seus atos e palavras por mais uterina que eles poderiam ser. Porque não ter sentidos ainda é válido quando não se é conformada, mas dizia isso com certa hipocrisia já que o conformismo proveria de suas máscaras&#8230; E porque não pensar que começara a criar novas máscaras? Não se sentia no direito de criar.<br />
Quem sabe continuar numa trilha por alguém estabelecida? Não. É preciso inovar. Idéias borbulhavam na cabeça, mas ainda não se sentia no direito de criar. Criara assim uma paixão. Queria algo mais palpável, perdeu o açúcar que carregava nos bolsos e deixara assim de ver como sublime poderia ser o ser, ou apena ser. Paixão não é palpável. Nem paixão nem idéia&#8230; Desistiu. Não era a primeira vez que faria isso durante o percurso.<br />
Era estanque e não mais temia ser assim, ou temia e fingia que não, como também fingia não ser, de novo.<br />
E será que isso seria mesmo o final de toda criatura?<br />
Se fosse esse, estaria próximo, pois quando pensou ser epifania era apenas náusea. E quando a náusea toma conta de um ser estanque é melhor deixar correr o sangue pelas artérias e pulsar mais uma vez a última gota de luz que morava em seu corpo: Es&#8230; Trela.<br />
Expropriou seu próprio eu e foi ver como era viver lá do outro lado.</p>
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		<title>Dama da Noite &#8211; Caio Fernando Abreu</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 00:49:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>estrelasdistraidass</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Caio Fernando Abreu]]></category>
		<category><![CDATA[Tiê]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>(&#8230;) Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota &#8211; tá me entendendo, garotão? Nada, você não entende nada.<br />
Dama da noite. todos me chamam e nem sabem que durmo o dia inteiro. Não suporto: luz, também nunca tenho nada pra fazer &#8211; o quê? Umas rendas aí.<br />
É, macetes. Não dou detalhe, adianta insistir. Mutreta, trambique, muamba. Já falei: não adianta insistir, boy . Aprendi que, se eu der detalhe, você vai sacar que tenho grana e se eu tenho grana você vai querer foder comigo só porque eu tenho grana. E acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara. Pago o copo, a bebida. Pago o estrago e até o bar, se ficar a fim de quebrar tudo. Quanto custa? Me diz que eu pago. Pago bebida, comida, dormida. E pago foda também, se for preciso.<br />
(&#8230;) Agora queria falar na roda. Essa roda, você não vê, garotão? Está por aí. rodando aqui mesmo. Olha em volta, cara. Bem do teu lado. Naquela mina ali, de preto, a de cabelo arrepiadinho. Tá bom, eu sei: pelo menos dois terços do bar veste preto e tem cabelo arrepiadinho, inclusive nós.<br />
Sabe que, se há uns dez anos eu pensasse em mim agora aqui sentada com você, eu não ia acreditar?<br />
(&#8230;) Levanta não, te pago outra vodca, quer? Só pra deixar eu falar mais na roda. Você é muito garoto, não entende dessas coisas. Deixa a vida te lavrar a cara, antes, então a gente. Bicho, esquisito: eu ia dizer alma, sabia? Quer que eu diga? Tá bom, se você faz tanta questão, posso dizer. Será que ainda consigo, como é que era mesmo? Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa.<br />
Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.<br />
A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim &#8211; tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito? Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente. Não rodam que nem você. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Nem eles, meus amigos fodidos, sabem que não são mais. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí, sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal da preto e cabelo arrepiadinho sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar na roda, meu bem.<br />
Pra mim, não. Nenhum sorriso. Cumplicidade zero. Eu não sou igual a eles, eles sabem disso. Dama da noite, eles falam, eu sei. Quando não falam coisa mais escrota, porque dama da noite é até bonito, eu acho. Aquela flor de cheiro enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: você nasceu dentro de um apartamento, vendo tevê.<br />
Não sabe nada. fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho. Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você e desses arrepiadinhos de preto do que de mim e daqueles meus amigos fodidos? A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. sabe quando vai dar? Pra vocês, nem isso. A gente teve a ilusão, mas vocês chegaram depois que mataram a ilusão da gente.<br />
Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Então eu tenho pena. Acho que sou melhor, sei porque peguei a coisa viva. Tá bom, desculpa, gatinho. Melhor, melhor não. Eu tive mais sorte, foi isso? Eu cheguei antes. E até me pergunto se não é sorte também estar do lado de fora dessa roda besta que roda sem fim, sem mim. No fundo, tenho nojo dela &#8211; você?<br />
Você não viu nada, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha em punho, morrendo de medo de pegar Aids. Vírus que mata. neguinho, vírus do amor. Deu a bundinha, comeu cuzinho. pronto: paranóia total. Semana seguinte, nasce uma espinha na cara e salve-se quem puder: baixou Emílio Ribas. Caganeira, tosse seca, gânglios generalizados.<br />
Õ boy, que grande merda fizeram com a tua cabecinha, hein? Você nem beija na boca sem morrer de cagaço. Transmite pela saliva, você leu em algum lugar. Você nem passa a mão em peito molhado sem ficar de cu na mão. Transmite pelo suor, você leu em algum lugar. Supondo que você lê, claro. Conta pra tia: você lê, meu bem? Nada, você não lê nada. Você vê pela tevê, eu sei. Mas na tevê também dá, o tempo todo: amor mata amor mata amor mata. Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda por cima adoro veado.<br />
Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy.<br />
Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu. O boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim e eu ainda nem comecei a falar na morte&#8230;<br />
Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes. Eu sou curtida, meu bem. A gente lê na sua cara que nunca. Esse furinho de veado no queixo, esse olhinho verde me olhando assim que nem eu fosse a Isabella Rossellini levando porrada e gostando e pedindo eat me eat me, escrota e deslumbrante. Essa tontura que você está sentindo não é porre, não. É vertigem do pecado, meu bem, tontura do veneno. O que que você vai contar amanhã na escola, hein? Sim, porque vocé ainda deve ir à escola, de lancheira e tudo. Já sei: conheci uma mina meio coroa, porra-louca demais. Cretino, cretino, pobre anjo cretino do fim de todas as coisas.<br />
(&#8230;)Quantas por dia? Muito bem, parabéns: você tá na idade. Mas anota aí pro teu futuro cair na real: essa sede, ninguém mata. Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá o gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy.<br />
Eu, cansei. Já não estou mais na idade. Quantos? Ah, você não vai acreditar, esquece. O que importa é que você entra por um ouvido meu e sai pelo outro, sabia? Você não fica. você não marca. Eu sei que fico em você, eu sei que marco você. Marco fundo. Eu sei que, daqui a um tempo, quando você estiver rodando na roda, vai lembrar que, uma noite. sentou ao lado de uma mina louca que te disse coisas, que te falou no sexo, na solidão, na morte. Feia, tão feia a morte, boy. A pessoa fica meio verde, sabe? Da cor quase assim desse molho de espinafre frio. Mais clarinho um pouco, mas isso nem é o pior. Tem uma coisa que já não está mais ali, isso é o mais triste. Você olha, olha e olha e o corpo fica assim que nem uma cadeira.<br />
Uma mesa, um cinzeiro, um prato vazio. Uma coisa sem nada dentro. Que nem casca de amendoim jogada na areia, é assim que a gente fica quando morre, viu, boy? E você, já descobriu que um dia também vai morrer?<br />
Dou, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê? Compreendo, compreendo sim, eu compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva. Sou tão maravilhosamente compreensiva e tudo que, se levar você pra minha cama agora e amanhã de manhã você tiver me roubado toda a grana, não pense que vou achar você um filho da puta. Não é o máximo da compreensão? Eu vou achar que você tá na sua, um garotinho roubando uma mulher meio pirada, meio coroa, que mexeu com sua cabecinha de anjo cretino desse nojento fim de todas as coisas. Tá tudo bem, é assim que as coisas são: ca-pi-ta-lis-tas, em letras góticas de neon. Mulher pirada e meio coroa que nem eu tem mais é que ser roubada por um garotinho ïmbecil e tesudinho como você. Só pra deixar de ser burra caindo outra vez nessa armadilha de sexo.<br />
Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros ecmo você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.<br />
Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro.<br />
Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.(&#8230;) </p>
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		<title>Hello world!</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 00:15:15 +0000</pubDate>
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